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ExpoFavela 2022: por dentro da feira de potencializaĆ§Ć£o do empreendedorismo na periferia

  • Gabriel Tavares
  • 16 de mai. de 2022
  • 6 min de leitura

Atualizado: 19 de mai. de 2022

Durante trĆŖs dias, o pĆŗblico teve oportunidade de conhecer empreendedores da favela, alĆ©m de participar de painĆ©is com personalidades negras de renome nacional


Por Gabriel Tavares


[Gabriel Tavares / Arquivo Pessoal]

SĆ£o Paulo recebeu a primeira ediĆ§Ć£o da ExpoFavela, evento que promoveu o ā€œencontro de oportunidades para a favela e o asfaltoā€, como reforƧado por Celso Athayde, idealizador da feira. Entre 15 e 17 abril, empreendedores e startups da favela ocuparam o WTC Events Center, localizado em regiĆ£o considerada nobre na capital paulista, para apresentar criaƧƵes, projetos, produtos e ideias.


O resultado do grande evento, descrito por muitos entrevistados, foi de representatividade. Composta por uma equipe majoritariamente da periferia, a ExpoFavela contou ainda com painĆ©is que debateram temas atuais e urgentes para a populaĆ§Ć£o brasileira, em especial a perifĆ©rica. Personalidades como Preto ZezĆ©, AndrĆ©ia Sadi, Adriana Barbosa, Nina Silva, Rachel Maia, Emicida, Regina CasĆ© e Kondzilla estiveram presentes e abordaram temas polĆ­ticos, econĆ“micos, sociais e culturais.


O prefeito de SĆ£o Paulo, Ricardo Nunes, esteve presente na abertura da ExpoFavela e conversou com o Central PerifĆ©rica. Para ele, o espĆ­rito empreendedor jĆ” faz parte da periferia, mas precisa ser despertado. ā€œPrecisamos despertar o espĆ­rito empreendedor. Isso Ć© algo fundamental. ƀs vezes as pessoas tĆŖm e nĆ£o sabem que tĆŖm. Olhar a favela nĆ£o sĆ³ como um ambiente normal, mas sim um ambiente que tem potencial gigantesco de pessoas, da capacidade de empreender. Quando vocĆŖ potencializa as pessoas, as coisas acontecem naturalmenteā€, concluiu.


Para a SecretĆ”ria Municipal de Cultura, Aline Torres, o maior impacto do evento foi conseguir impulsionar as potĆŖncias de periferias e favelas. ā€œHoje Ć© o melhor espelho, porque as pessoas estĆ£o vindo aqui, se olhando no espelho e se vendo representadasā€, afirmou Torres.


[Gabriel Tavares / Arquivo Pessoal]

Veja abaixo o vĆ­deo completo da entrevista com Nunes e Torres.



O portal Central PerifĆ©rica tambĆ©m conversou com expositores presentes no evento e traz a seguir um pouco de suas histĆ³rias.


JosƩ Marcio - Quitem


[Gabriel Tavares / Arquivo Pessoal]

O principal entusiasta da iniciativa que JosĆ© MĆ”rcio comeƧou a construir durante a pandemia Ć© ele mesmo, e o motivo Ć© nobre: colaborar para a inclusĆ£o digital de comerciantes excluĆ­dos por grandes plataformas de vendas. O empreendedor de Francisco Morato era dono de uma loja de bomboniere hĆ” mais de 15 anos, mas a pandemia fez seus lucros caĆ­rem mais de 90%. Com isso, ele precisou vender a loja e decidiu comeƧar a vender seus produtos pela internet.


PorĆ©m, ele se deparou com um mercado dominado por grandes empresas, com altas taxas e, principalmente, sem capilaridade nas comunidades perifĆ©ricas. EntĆ£o, o comerciante se juntou com um amigo e decidiu criar uma plataforma de vendas online para conectar a comunidade a ela mesma, a ā€œQuitemā€.


A ideia Ʃ que cada consumidor possa digitar o seu CEP para localizar lojas e prestadores de serviƧos ao seu redor, ajudando assim a movimentar a economia local. Na feira, o empreendedor foi em busca de recursos para viabilizar a plataforma.


ā€œEu busco investimento para poder iniciar o projeto em Francisco Morato. Eu fiz um plano piloto e jĆ” gastei sete mil reais do prĆ³prio bolso. O que mais sinto falta Ć© de um profissional de Web Designer consegue moldar a plataforma, que foi a minha dificuldade, quando parei o projetoā€, contou Morato para o Central PerifĆ©rica. Ele considera que nasceu para empreender: ā€œvocĆŖ acredita, vocĆŖ vendeā€.


Leandro Souza ā€“ Marque a Sua GeraĆ§Ć£o


[Gabriel Tavares / Arquivo Pessoal]

Marque a sua geraĆ§Ć£o: esse Ć© o tĆ­tulo da autobiografia de Leandro Souza, um palestrante de 24 anos. TambĆ©m instrutor de primeiros socorros, o jovem autor decidiu escrever seu livro ao perceber que os adolescentes ao seu redor estavam sem perspectiva de futuro. O inconformismo Ć© o principal combustĆ­vel para que ele supere as dificuldades e alcance seus sonhos: ser mĆ©dico e ser uma referĆŖncia de impacto para a sociedade.


Nesse sentido, a obra Ć©, segundo ele, uma forma de trazer esperanƧa para a juventude e nĆ£o ser apenas uma estatĆ­stica. ā€œAssim como ela [a juventude], eu preciso olhar para o outro para enxergar suporte, para enxergar esperanƧa. Da mesma forma que eu enxergo isso no outro, eu quero ser um suporte dessa geraĆ§Ć£o. Basicamente, eu busquei escrever para issoā€, conta.


Entretanto, mesmo com a vontade de fazer a diferenƧa, Leandro sentiu os impactos da exclusĆ£o e invisibilidade social. ā€œPor um momento, eu pensei que a minha histĆ³ria nĆ£o cabia aqui, porque eu cresci na zona leste de SĆ£o Paulo, eu cresci escutando que nĆ£o poderia chegar em lugar algum, sendo empurrado para trĆ”s e puxado para baixoā€. Isso mudou quando, na semana do evento, um de seus professores lhe convidou para apresentar seu livro durante a ExpoFavela. ā€œNa segunda-feira Ć  noite, eu entrei no site e lĆ” estava escrito: ā€˜vocĆŖ que Ć© escritor da favela, entre em contato com a gente para expor seu livroā€™ā€.


Mais uma vez, o tema representatividade voltou a ser mencionado. O jovem conta que jĆ” conheceu muitas pessoas, mas a primeira vez que se sentiu representado foi durante um painel com a empresĆ”ria Rachel Maia durante a ExpoFavela. ā€œNa palestra dela, eu entreguei um livro meu e falei isso. Eu me senti representado ali. Por que isso resume o que digo: nĆ³s precisamos olhar para pessoas e sentir esperanƧa. A primeira pessoa que eu olhei e me transmitiu esperanƧa foi a Rachel Maiaā€, finaliza.


JoĆ£o Belmonte e Felipe do Carmo - Geloteca


[Gabriel Tavares / Arquivo Pessoal]

ConexƵes ajudam. Ɖ assim que os idealizadores da Geloteca, iniciativa que transforma geladeiras usadas em bibliotecas comunitĆ”rias nas periferias, descrevem o impacto da ExpoFavela para o projeto. ā€œĆ‰ um espaƧo que as pessoas enxergam o que a gente enxerga. Fora daqui Ć© muito difĆ­cil. Por exemplo, eu trabalho em um estĆŗdio, e quando levam uma geladeira para a gente, eu sempre sinto essa empolgaĆ§Ć£o porque eu sei do impacto. Os colegas nĆ£o [sentem] porque Ć© outra visĆ£oā€, conta JoĆ£o Belmonte, que hĆ” seis anos leva o projeto em frente junto com Felipe do Carmo, ambos professores.


Belmonte conta qual Ć© a grande recompensa de todo o trabalho coletivo. ā€œUma menina chegou na gente e falou: ā€˜sou estudante de enfermagem e eu peguei os livros esse ano aqui na Gelotecaā€. O professor explica que uma das bibliotecas comunitĆ”rias, localizada em um posto de saĆŗde, recebe doaƧƵes de livros didĆ”ticos deixados pelos profissionais da unidade. ā€œEssa garota que Ć© da periferia da Zona Norte estĆ” estudando pelos livros. Ɖ esse o movimentoā€, finaliza.


Diferentemente de outros expositores, o motivo de trazer a Geloteca para a ExpoFavela nĆ£o era buscar financiamento, mas sim conhecer outras pessoas que possam colaborar com o projeto. Felipe conta que agora a Geloteca jĆ” recebe alunos do ensino fundamental para montar as bibliotecas coletivas. ā€œA gente multiplicou pessoas para socializar o nosso sonho: fazer das quebradas as referĆŖncias em hĆ”bitos de leituraā€. Ele se mostra indignado com a taxaĆ§Ć£o de livros pelo governo, fato este que, na visĆ£o do idealizador, dificulta o acesso e colabora para o baixo Ć­ndice de leitura no Brasil. ā€œEntĆ£o a gente quebra [essa falta de] acesso Ć s bibliotecas pĆŗblicas, que sĆ£o longe da periferia. NĆ³s criamos minibibliotecas independentes em vĆ”rios locaisā€.


Consuelo GonƧalves ā€“ Feira de Mulheres Negras


[Gabriel Tavares / Arquivo Pessoal]

ā€œNĆ³s nos identificamos muito com o espaƧo de feira, porque somos uma feira em primeiro lugar. TambĆ©m ocupamos espaƧos ditos nobres das cidadesā€, conta Consuelo GonƧalves, em referĆŖncia ao WTC Events Center, local de realizaĆ§Ć£o da ExpoFavela. Nascida no Rio Grande do Sul e moradora do RecĆ“ncavo Baiano hĆ” 20 anos, ela Ć© a organizadora da Feira de Mulheres Negras na cidade de Cachoeira (BA) e veio para SĆ£o Paulo para representar o grupo composto por cerca de 35 artesĆ£s.


ā€œNĆ£o imaginava que chegarĆ­amos na Ćŗltima fase. Isso para nĆ³s Ć© muito importante, porque foram 20 mil empreendimentos inscritos. 1700 foram convocados e 300 vieram. Ficamos entre 40 empreendimentos que de onde sairiam os dez para concorrer ao prĆŖmio final. Chegamos perto de estarmos nesse reality [show] com os nossos produtos, identidade, cultura, histĆ³ria e a memĆ³ria dessas mulheresā€, conta.


O reality show mencionado pela artesĆ£, "ExpoFavela: o Desafio", foi gravado durante os tres dias de evento e, posteriormente, transmitido pela TV Globo no programa ā€œĆ‰ de Casaā€. O vencedor foi Mateus Diniz, que desenvolveu o app ā€œTodas Por Umaā€, voltado contra a violĆŖncia domĆ©stica. Ele recebeu um prĆŖmio de R$ 80 mil para impulsionar o projeto, jĆ” presente em 12 paĆ­ses.


Consuelo, devota de Maria MĆ£e de Jesus, ressaltou a importĆ¢ncia da data em que a ExpoFavela ocorreu. ā€œA prĆ³pria pĆ”scoa, o prĆ³prio processo de Jesus Cristo pode estar nos trazendo para juntarmos as pessoas nesse lugar, no dia da PĆ”scoa, para fazer algo ressurgir disso que estamos vivendo de tĆ£o terrĆ­vel. Todas as coisas terrĆ­veis desse tempo. Talvez a gente precisasse estar aqui mesmo nesse dia, nessa Sexta-Feira Santa, para que algo aconteƧa. EstĆ” acontecendoā€, contou emocionada.


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